Ao baixar as altas temperaturas e com a queda das folhas na cinzenta São Paulo, chega o Outono e, com todo este sentimento de perda, a banda Scarlet Leaves… O trio formado em 2003 por Jean (Synths), Audret (Guitarra) e Cláudia (Vozes) já desponta como promissoras e vigorosas folhas a renascer na Primavera do cenário alternativo brasileiro. São climas etéreos, guitarras e melodias a soprar como uma fresca brisa que se unem a delicados e belos vocais em uma atmosfera inebriante e repleta de ternura…
Talvez seja uma aposta invulgar para os dias actuais, porém é uma linda aposta…
Scarlet Leaves relaciona-se com o Outono… Compare este fenómeno Natural com a ideologia da banda?
A natureza é nossa inesgotável fonte de inspiração. O Outono é a estação mais bonita e aqui no Brasil torna o clima mais agradável com o decréscimo da temperatura, principalmente à noite. Outro aspecto a ressaltar é que, assim como as folhas, os sentimentos comportam da mesma maneira, a passar por estágios que se repetem. Os nossos sentimentos e estado de espírito são assim também e influenciam a maneira como compomos, tanto no aspecto musical quanto literário.
Quais são as principais diferenças entre o projecto inicial, Porfiria, com o Scarlet Leaves?
A mudança do nome ocorreu apenas porque tivemos alguns problemas com o antigo... Inicialmente éramos 4 pessoas, contávamos com baixo eléctrico e não conseguíamos manter uma vocalista… Com o novo nome, deixamos a banda um pouco mais electrónica com partes sequenciadas e ocorreu
a entrada e estabilização da Cláudia como vocalista.
Como é feito o processo de produção e o perfeito encaixe das atmosferas etéreas com o belo vocal da Cláudia?
Acredito qu e tudo comece com algum som, criamos a atmosfera de acordo com nossos sentimentos. A seguir a este princípio e, assim que algo interessante, é formado, amadurecemos as ideias e adicionamos novos sons e efeitos. A Cláudia tem uma grande sensibilidade… ela sente o que a música diz e desenvolve as suas linhas de canto facilmente.
Eu comecei a passar som com bandas Dark Wave & Ethereal e vejo que actualmente há poucos projectos que seguem estas vertentes, ou não aparecem tanto em detrimento aos outros estilos. Algumas influências como Cocteau Twins, Lycia e outras bandas deste cenário são óbvias no vosso trabalho. Como observam a ramificação da cena alternativa com maiores tentáculos na música electrónica ou metal? Acreditam que estejam a nadar contra a corrente?
Penso que, das cenas alternativas, a nossa é a mais diversificada, já que envolve diversos aspectos culturais e incorpora uma série de vertentes musicais… A cena sempre foi aberta e absorveu várias influências de outros estilos; o que é positivo pela renovação constante. É um facto que alguns tipos de músicas electrónica deixaram a cena mais acessível e o metal trouxe um outro público para dentro da mesma… Penso que não haveria problema se todos tivessem o seu espaço. Entretanto alguns estilos como Ethereal, Dark Wave e Gothic Rock vão deixando de aparecer… Estes não podem deixar de existir e penso que não serão; já que sempre haverá pessoas a criar dentro deles… O que falta é uma maior atenção. Não acreditamos que estamos a ir contra a corrente, pois fazemos o que gostamos e sabemos que, felizmente, ainda há muitos que também gostam.
A música do Scarlet Leaves tem boa aceitação por aqui. Qual é o sentimento ao saber do reconhecimento de um óptimo trabalho? Fala-nos sobre a repercussão
à vossa música?
Desde o lançamento do nosso primeiro “single” demo, “Images of Memories” obtivemos comentários positivos. Posteriormente, com o EP, a banda tem vindo a atingir um público muito maior… Desde então os admiradores crescem e chegam-nos sempre comentários excelentes a cada dia, tanto do
Brasil quanto do exterior… O que nos deixa muito contentes, satisfeitos e fortes para prosseguir a jornada.
Como surgiu o convite para a participação na compilação “Harmonia Mundi”, editada pela Danse Macabre Records, com bandas da América do Sul?
Quando os Das Ich estiveram a tocar pelo Brasil, o teclista e produtor Bruno Kramm, que também é proprietário do selo Danse Macabre, conheceu a maneira das bandas existentes na América do Sul e interessou-se em editar uma compilação com as bandas do continente; deixando a responsabilidade
de seleccioná-las nas mãos de Alex Twin (The 3 Cold Men). Obviamente. Quando soubemos desta selecção, enviámos material e após algum tempo ficámos muito felizes ao receber a informação que iríamos integrar na compilação… A materialização do sonho em forma de CD representa o alcance de novos horizontes e o transporte da nossa música a mais pessoas e em diversos pontos do globo.
O que esperar do EP “Compilation of Early Dreams”? Quais foram as dificuldades para gravá-lo? Quando teremos um álbum inteiro de inéditas?
Embora seja um EP promocional, representa a concretização dos nossos ideais, a superação de dificuldades iniciais e a realização de antigos sonhos (razão da escolha do nome). O CD contém muito do nosso estilo de composição… Podese perceber as faces da nossa música, a variar entre o Ethereal e o Dark Wave… às vezes mais introspectivas, outras mais dançantes. Podemos mencionar a falta de tempo como um problema durante as gravações e produção… Entretanto, serviu de experiência para que da próxima vez as coisas sejam feitas de maneira diferente. De qualquer modo o resultado final agradou-nos bastante e ficámos satisfeitos. Já estamos a compor material novo e pretendemos gravá-lo brevemente… Estes temas novos mostrarão uma evolução e maior entrosamento dos integrantes.
Fala-nos sobre as apresentações do Scarlet Leaves? Como são? Qual a atitude do público?
Desde o primeiro concerto o público tem crescido e é muito bom perceber que muitos estão sempre presentes em todas as apresentações… Desta forma, procuramos sempre trazer alguma novidade a cada novo concerto e costumamos tocar poucas vezes ao ano. Acredito que passamos uma atmosfera e energia forte durante os concertos… A Cláudia é muito carismática e conquista todos com a sua voz e simpatia. É extremamente gratificante ver a audiência a cantar e dançar enquanto tocamos… Perceber que as pessoas conhecem e gostam das músicas ou sentir os olhares de admiração daqueles que estão a assistir pela primeira vez.
Na minha opinião a banda possui qualidade e condições para ser editado e tocar internacionalmente, talvez ainda seja um pouco cedo, mas creio que isso poderá acontecer. Quais são os sonhos a concretizar?
O próximo passo natural é lançar o primeiro álbum. Para isso precisamos de uma editora interessada no nosso trabalho. Estamos a procurá-la e estamos certos que a encontraremos. Participar em mais compilações seria muito bom como também tocar em mais lugares cada vez mais distantes…
Entre inúmeras outras, a decadência da cena alternativa nacional foi uma das razões que me incentivou a mudar para Portugal. Como se encontra agora o cenário brasileiro? O que precisaria ser mudado para melhorá-lo?
Sempre pensei que aqui não há uma cena propriamente dita; a qual é constituída por muitas coisas, das quais algumas são inexistentes por aqui. Estamos carentes de festivais com qualidade, onde as bandas possam mostrar seu trabalho sem ter que se sujeitar às condições precárias normalmente apresentadas e que certamente prejudicam muito a performance. A cena está globalizada e as novidades atingem todos rapidamente, porém, aqui parecemos viver à parte disso. O público também se mostra pouco activo e desinteressado em novidades, sujeitando-se a inércia e falta de qualidade. Temos também um círculo vicioso a envolver as bandas, organizadores de eventos, djs e público. Contudo, penso que, de há um tempo para cá; algo tem mudado… Temos mais pessoas interessadas nas competentes bandas daqui, temos algumas grifes de roupas e eventos esporádicos com qualidade. Contudo não espero alguma grande mudança, nem mesmo a longo prazo, visto que já caminhamos nestas condições há muito tempo. Talvez as coisas tomem um aspecto melhor; caso haja maior interacção entre os Djs, bandas, organizadores e o público que é o que mais ganhará com isso tudo.
Como imaginam ser a cena portuguesa e espanhola?
Nós sempre tivemos uma imagem geral que a cena Europeia é muito forte. Só tivemos uma referência mais clara do cenário português há pouco tempo, o qual nos parece sólido, organizado, com diversas bandas em vários segmentos e grandes festas e eventos. Acreditamos que o facto de estar na Europa ajude muito, pois os países estão interligados e facilita as digressões das bandas e festivais; além das grandes editoras estarem por aí também.
Acredito ser importante reconhecer as pessoas que nos apoiam e encorajam o desenvolvimento do nosso trabalho. Que apoios têm recebido?
Realmente os apoios são fundamentais! Temos algumas pessoas que sempre nos ajudaram e estaremo-lhes eternamente gratos… É importante mencionar que as pessoas que se interessam pelas nossas músicas, fazem o download pelo “site”, pedem os CDs, vão aos concertos e deixam mensagens, são também uma espécie de apoio para nós. |